Gnte há que se mete em confusāo com alguma frequência.
Por mais que preste(m) atenção.
Acho que eu presto bastante atenção ao que faço.
Mesmo assim, a confusão ocorre.
Parece que cai do céu em cima de mim.
No primeiro dia em que dormi aqui em Barcelona, no apartamento da Iratze, quentíssimo como qualquer
outro das redondezas, a Iratze me confidenciou que dorme sem roupa, para fugir ao calor.
Pois bem, acordei na manhã seguinte a que cheguei, quando tinha um trem que eu queria pegar às 07:16,
e não consegui achar as chaves do apartamento, por mais que as procurasse.
Não podia deixar de sair, pois tinha um primo catalão me esperando em uma estaçãozinha de trem catalã,
chamada Sant Miguel de Fluvia.
Eu não teria coragem de deixar alguém, quanto mais um primo que nunca encontrara, esperando por mim
em Sant miguel de Fluvia, pois fico imaginando que não houvesse muito mais com que se ocupar nessa ci-
dade do que esperar por minha augusta presença.
Quando não podia mais aguardar procurand os malditas chaves, aproximei-me, naturalmente de costas
para a basca que dormia "ao natural" e gritei-sem-gritar-por-vergonha-e-medo:
"Iratze, não sei onde estão minhas chaves..."
Para o esclarecimento definitivo de meus leitores, informo que, apesar do nervisismo e vergonha que sentia,
NÃO falei essa frase em basco.
A única palavra daquela frase que domino é IRATZE e acho que isso só aumentaria minha crescente agonia.
Resposta fulminante da Iratze: silêncio absoluto. Parece que basca sem roupa ouve mal, concluí, sem muita
convicção.
Vociferei, então, no mais autêntico "portunhol": Iratza, muchacha de Diós, me perdi las llavitas de tu casita!"
A basca acordou furiosa.
Disse-me, em castelhano, para ser gentil, com voz IRRITADÍSSIMA: "llame Bergoi, llame Bergoi"
Notei, inferi, concluí, em segundos, que eu não tinha cartaz com a menina basca.
Liguei, então, ligeiramente mais envergonhado do que antes, às 06:15 da madrugada, para o Bergoi,
que gentilmente conversou com o trapalhão, partiu de sua casa para a casa da ex-, a fim de lidar com a crise.
Enquanto isso, envergonhadíssmo-eu, em total desespero, achei as benditas chaves, liguei para o Bergoi, disse
que ele podia voltar para casa e para a cama, e disse para a basca, quase em tom triunfal, algo mais ou
menos equivalente a "viu, como eu te disse que encontrava as perdidinhas logo logo?!!".
Mas não me atrevi a dizer nada disso em basco, podem acreditar...
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